Subidas de arrepiar a pele dos tomates

A primeira vez que subi à Torre, na Serra da Estrela

Por Carlos Gomes


Apaixonei-me por andar de bicicleta quando ainda era criança, como quase todos nós. Na altura, porém, não tive verdadeira consciência do impacto que isso teria na minha vida. Essa percepção só chegou mais tarde, quando voltei a pedalar depois dos anos parvos da adolescência e da juventude adulta.

O Dia em Que Tudo Mudou

Sei o momento exacto em que andar de bicicleta entrou na minha vida de forma retumbante e definitiva: o dia em que subi, pela primeira vez, ao topo da Serra da Estrela, à famosa Torre.

A bicicleta ajudou-me a ligar pontos soltos da minha vida, a ultrapassar barreiras e a organizar sentimentos e emoções de uma forma fluida e orgânica, sem esforço — como se tivesse sido sempre assim. Mas não foi sempre assim.

Nunca fui — nem sou — grande atleta. Mas, armado de teimosia, lancei-me atrás deste objectivo algo louco para alguém que, até então, só pedalava aos domingos, entre 30 e 50 quilómetros.

Balocas: O Ponto de Partida

Balocas foi o meu ponto de partida. Sei bem que o nome desta minúscula aldeia na Serra do Açor não diz nada à maioria das pessoas, mas é a terra do meu sogro e tornou-se também um bocadinho a minha terra do ciclismo. Para terem uma ideia, a única estrada de acesso tem 1,8 quilómetros com quase 250 metros de desnível acumulado. Do centro de Balocas até à Torre são cerca de 40 quilómetros, com pouco mais de 2.000 metros de acumulado.

A bicicleta que tinha na altura — e que ainda hoje é a bicicleta de recados do Grupeto — era uma KTM Prowler de 2006, com cerca de 15 kg. Foi ela que me abriu as portas àquilo que podemos fazer numa bicicleta quando somos resilientes (ou, noutra palavra, teimosos).

A Partida Antes do Amanhecer

Nesse dia acordei às cinco da manhã. Comi uma torrada com manteiga da boa, bebi um café com leite, água da fonte, e equipei-me. Estava pronto. Já na rua, só ouvia as pás das eólicas a cortarem o vento, como gigantes dignos de Dom Quixote. A pensar nessa personagem de Cervantes, agarrei na minha montaria e parti para a demanda com a minha burra — mas sem Sancho Pança.

“Vai apanhar umas subidas de arrepiar a pele dos tomates”

Primeiro foi a descer, sem dificuldade. Depois começou a subir… e nunca mais parou. Não tinha GPS, por isso fui parando para perguntar se estava no caminho certo. Das respostas que obtive, uma ficou gravada para sempre. Um aldeão, a quem perguntei se estava bem para a Torre, respondeu:
“Vai por aqui, mas vai apanhar umas subidas de arrepiar a pele dos tomates.”

Com este mote, lá segui. Fiquei a perceber que uma pequena localidade como Vasco Esteves pode ter umas quinze placas a indicar a sua localização, que Loriga é lindíssima, com a sua praia fluvial de águas gélidas do Zêzere, e que, quando chegamos ao Parque Natural da Serra da Estrela, já levamos cerca de mil metros de acumulado nas pernas… e já nos sentimos prontos para voltar para trás.

O Adamastor e a Humildade

Subi pelo Adamastor, por aquelas estradas largas com paisagens tão impressionantes que nos esmagam e reduzem à nossa insignificância. Já sem grande fulgor no corpo e com a teimosia a vacilar, restava-me uma única motivação: tirar uma fotografia na Torre, com a bicicleta em braços por cima de mim.

Custou-me cada pedalada, cada respiração, cada metro conquistado. Mas cheguei. Estava radiante. Feliz mesmo. Um pouco orgulhoso, como se fosse um aventureiro que tivesse acabado de cumprir um feito único. Procurei alguém que me tirasse a famigerada fotografia, mas àquela hora não se via vivalma. Até que chegaram outros aventureiros, em bicicletas de estrada, e lhes pedi ajuda. Estava feito — pensava eu.

Na conversa com esses ciclistas, fiquei a saber que, nesse mesmo dia, iam subir a Serra pelas quatro vertentes. Uma espécie de “Estrela da Estrela”. O orgulho pelo meu feito deu então lugar à humildade, transformada num desejo simples: vou comprar uma bicicleta de estrada. E assim foi.

Mas nunca esquecerei a minha KTM de montanha, nem aquilo que me deu.

A Liberdade Que Não Se Compra

Foi ela que me “explicou” que a liberdade de podermos ir onde quisermos apenas com o nosso esforço é um valor que não se vende nem se compra. Conquista-se. E é uma liberdade que abre horizontes — geográficos e interiores. Cada montanha que subimos abre qualquer coisa dentro de nós, empurra-nos para ir mais além e espreitar por detrás do véu que a preguiça e a ignorância tanto estimam.


O meu sogro foi buscar-me à Torre de carro, porque as perninhas já não davam para regressar a Balocas. Mas, desde esse dia, já subi dezenas de vezes à Torre — e regressei sempre pelos meus próprios meios.